Dr. Marcos Sueyassu fala os avanços no tratamento de Síndrome de Down

De acordo com o Neuropediatra, houve muitos avanços na qualidade de vida das pessoas com a síndrome nos últimos anos

Dr. Marcos Antônio Sueyassu é chefe do serviço de Neuropediatria do INAO e um dos Neuropediatras mais renomados de Rondônia. É graduado pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e Especialista em Neurologia Infantil pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Neste Dia Internacional da Síndrome de Down, o médico fala sobre as características neurológicas da Síndrome e a evolução no suporte aos portadores, que tem permitido uma sensível melhora em sua qualidade de vida. Confira!

Dr. Marcos, a Síndrome de Down é considerada uma doença?

Resposta: Não, não é considerada uma doença. É uma encefalopatia considerada como crônica não evolutiva, ou seja, não piora com o passar do tempo. É um quadro que, devido a uma expressão gênica, ou seja características genéticas, leva a um conjunto de situações, inclusive do sistema nervoso, que proporciona um atraso no desenvolvimento neurológico, tanto da parte motora quanto da parte cognitiva.

E quais são as principais implicações neurológicas do portador de SD?

Dr. Marcos: Bom, é o atraso global do desenvolvimento neurológico, tanto na parte motora quanto cognitiva, mas principalmente na parte cognitiva. A nossa parte cognitiva depende de três faculdades. A principal faculdade da nossa inteligência é a linguagem, não só falada. É a habilidade de leitura, habilidade com números, expressão corporal, interpretação. A segunda faculdade, que é totalmente dependente da linguagem, é a interatividade, a integração, tanto com os da mesma espécie quanto com animais, plantas, enfim. Para você interagir é necessário se comunicar, por isso a linguística é a principal. E a terceira faculdade, que depende das outras duas, mas principalmente da linguística, é a criatividade. Criatividade nada mais é do que a maneira que você ultrapassa as barreiras de uma intenção criada por você mesmo, como você chega a um propósito que você mesmo traçou, mas passando pelas adversidades, pelas barreiras. Pra isso você precisa interagir. E pra você ter uma boa interação é preciso se comunicar. Então, linguagem, interatividade e criatividade são a base da nossa inteligência. A grande maioria dos seres humanos, na parte neurológica, tem um hemisfério dominante no cérebro para a parte cognitiva, que é o esquerdo. Pega parte do lóbulo frontal, parietal e todo lóbulo temporal do lado esquerdo. Lógico que tudo que tem do lado esquerdo nó temos do lado direito. Aí na SD, independente do domínio, o principal comprometimento é o desenvolvimento cognitivo, pois todas estas faculdades estão comprometidas.

Os tratamentos pra SD tiveram grande evolução nos últimos anos, não é mesmo? Qual o prognóstico hoje pra uma criança que nasce com SD?

Dr. Marcos: Sem dúvida nenhuma! Inclusive a expectativa de vida hoje é muito maior. Há duas, três décadas atrás, a sobrevida era reduzida demais. Hoje os portadores da SD podem chegar a 75 anos, até 80 anos!

É compatível com uma pessoa que não possui SD?

Dr. Marcos: Sim, desde que você dê o suporte necessário. E principalmente o suporte cognitivo. É claro que físico também, porque um puxa o outro. Então hoje na SD a gente vê horizontes muito mais amplos, porque as pessoas não estão mais condenadas ao ostracismo intelectual que era antes. A pedagogia foi adaptada e é capaz de fornecer uma maior independência intelectual aos portadores de SD, que hoje participam de várias atividades, são muito mais atuantes, e conseguem inclusive concluir uma faculdade, dependendo da conjunção física e intelectual. A gente vê eles atuando em artes cênicas, na música, nas artes em geral. E isso leva a um aumento da expectativa de vida, porque a formação da sua própria opinião te leva a ser mediador de você mesmo, a ter sua própria autonomia, a ter uma vida pessoal. Desculpe a expressão, mas antigamente os portadores de SD eram depositados em algum lugar, quando não ficavam confinados, não tinham nenhuma perspectiva de vida e caíam num ostracismo intelectual. E a nossa vida é regida pelos projetos; se você não tem projetos de vida sua expectativa cai também. Então eles comiam demais, ficavam sedentários, o que propiciava o aparecimento de comorbidades e reduziam a expectativa de vida. Então hoje a vida ativa dos portadores de SD, com suporte, dentro dos critérios estabelecidos pra cada indivíduo, vai abrindo cada vez mais os horizontes.

Aqui em Porto Velho a gente consegue ter um suporte adequado para os portadores de SD?

Dr. Marcos: Infelizmente ainda não temos o ideal. Temos um suporte adaptado, assim como também para outras síndromes que envolvem comprometimento cognitivo. Ainda não estamos no ‘nirvana’, porque falta muita coisa. Por exemplo, ainda faltam ambientes que estimulem o portador de SD, principalmente na parte física. Na verdade, você precisa de ambiente que estimule os dois, físico e cognitivo, juntos. Porque o funcionamento do sistema nervoso depende muito da produção de neurotransmissores, que pra SD os mais buscados são as endorfinas. São substância que além de ativar o cérebro lhe dão prazer. Porque quem tem SD costuma ser muito ansioso, não uma ansiedade que aflora, mais muitas vezes que é introspectiva. E isso pode provocar um certo comportamento rebelde, radical; ou até mesmo o inverso, de ficarem muito apáticos. Então isso tem sempre que estar sendo dosado. As escolas tentam dar um suporte, principalmente depois da lei da inclusão, mas ainda não é o ideal e falta muita coisa, principalmente nas cidades do interior. Não só pra SD mas pra todas as outras condições que causam algum déficit cognitivo.

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